Bem-vindo ao estranho mundo do ar condicionado

Texto que escrevi em 2001 e resolvi postar. Foto: http://carsbabes.blogspot.com/
Imagine um mundo limpo, asséptico, silencioso, com aroma de couro de primeira e perfumes caríssimos. Um mundo perfeito, sem violência, imaculado. Então, seja bem-vindo ao Mundo do Ar Condicionado.
Aqui, a opinião alheia não tem a menor importância. Aliás, não só a opinião, ninguém tem a menor importância. Quem se atreve a romper esta barreira é sumariamente ignorado. Gritar, bater no vidro, buzinar, xingar, nada disso surte o menor efeito.
As pessoas que vivem neste universo engaiolado não sofrem influência alguma do mundo exterior. Saem de suas casas e apartamentos equipados com os mais modernos aparatos de segurança dirigindo carros de luxo, importados e blindados. Em alguns casos se dirigem ao trabalho. Ou a bons restaurantes, vernissages, soirées, coquetéis, salões de beleza de alto nível, spas e também shopping centers. Todos locais providos de excelentes sistemas de ar condicionado, é claro.
O leitor mais afoito pode sair em defesa destas frágeis criaturas, argumentando que qualquer afortunado tem o direito de aproveitar as vantagens de uma ou mais contas bancárias bem recheadas. Óbvio que sim. Todo mundo, salvo raras exceções, gosta de viver bem, cercado de confortos. Nada contra carros luxuosos, muito pelo contrário. O problema não é esse. Como se diz, o buraco é mais embaixo.
O que irrita nessas pessoas é a atitude. Que pode ser arrogante, agressiva ou de total alienação. Para elas, as ruas são como uma extensão de suas garagens, como vastas alamedas que as levam a seletos paraísos de consumo, beleza e entretenimento. Errados são os outros. Afinal, porque reclamar quando, no trânsito, mudam de faixa repentinamente, sem sinalização. Quando param em fila dupla para apanhar seus rebentos nos colégios mais exclusivos da cidade. Quando falam ao celular, fumam seus longos cigarros de filtro branco e ostentam mais ouro que um altar de igreja barroca. Tudo isso ao mesmo tempo em que estão dirigindo, é claro. E sem viva voz ou fones de ouvido...
Dinheiro traz, acima de tudo, uma liberdade que pode se confundir com felicidade. Não é preciso fazer contas para ver quanto sobra – ou falta – no final do mês. Viajar ao exterior é tão simples quanto um fim de semana na praia. Mas, quando tudo isso é o centro de sua vida, a liberdade se transforma numa camisa de força. O indivíduo passa a viver em função das aparências, da ostentação e do exibicionismo desbragado.
Felizmente, existem aqueles que se preocupam com o que acontece à sua volta. E, sem alarde, ajudam outras pessoas a ter uma vida mais digna. Infelizmente, estes são uma pequena minoria de uma parcela da população que já é diminuta. Falta a estas pessoas a lucidez de entender que não é o caso de lutarem por uma fatia maior do bolo. Mas, ao contrário, lutar para que o bolo cresça. Aí, naturalmente, a fatia será maior. E bem mais saborosa.
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h28
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